terça-feira, 14 de abril de 2015

Um diálogo entre neurociência e aprendizado


Na descrição do meu perfil, eu disse que este blog será dedicado, principalmente, às minhas experiências dentro de uma escola como professor. Porém, o tema desta postagem não tem muito a ver com experiências minhas, mas não é sem relação com as mesmas. Na escola em que eu dou aula, existe uma certa heterogeneidade. O que eu quero dizer com isso? Em uma das turmas, principalmente, existem muitos alunos que vieram de escolas públicas e outros que vieram de escolas particulares. Qual é a implicação disso? Muitas vezes, eu e os outros professores nos encontramos em situações complicadas ao decorrer das aulas. Ao explicar, por exemplo, os estados físicos da matéria, alguns alunos (normalmente, aqueles de escolas particulares) já viram o mesmo conteúdo em suas respectivas escolas, o que os dá uma margem de distanciamento intelectual em relação aqueles que provêm de escolas públicas (obviamente, eu não posso generalizar e dizer que todos os alunos de escolas públicas apresentam defasagem no conteúdo). Portanto, ao explicar um assunto, os alunos mais familiarizados com o conteúdo se põem à frente dos outros e respondem perguntas minhas com maior facilidade. Isto causa um problema muito sério dentro da sala de aula: os menos familiarizados com o conteúdo se sentem desprovidos da capacidade de responder às minhas perguntas quando eu as faço. Esse fato lhes traz um sentimento de inferioridade que não os motiva a correr atrás da compreensão. Como mediador da atividade cognitiva, os professores devem trazer uma homogeneidade capacitiva para dentro da sala de aula. Os professores devem utilizar técnicas muito úteis para incentivar os alunos, que se sentem inferiores, a correrem atrás do conhecimento. Mas enfim... qual é a real origem desse problema? Um campo da ciência está se desenvolvendo a largos passos: a neurociência. Entender o comportamento e a sua base estrutural (o sistema nervoso) é essencial para que o professor tenha uma visão mais ampla sobre quais são as capacidades de seus alunos e, até mesmo, quais devem ser as suas expectativas sobre o aproveitamento em classe. O meu plano, para o meu futuro universitário, é fazer Licenciatura em química e Bacharelado em Neurociência. As duas áreas estão intimamente ligadas por motivos óbvios: ser professor é trabalhar com vários cérebros. E digo mais: ser professor no Ensino Básico é trabalhar com o futuro daqueles que serão os cidadãos aptos a fazerem escolhas e montarem as suas vidas (suas obras). Porém, são os professores os únicos que podem afetar de forma positiva ou negativa o funcionamento cerebral dos alunos? Não. A neurociência segue uma ideia bem observável: a estrutura do nosso sistema nervoso está diretamente ligada aos nossos comportamentos. Essa ideia nem sempre foi a melhor aceita. Antigamente, acreditava-se que o nosso ser (a consciência e a origem dos sentimentos) é algo fora do corpo ou sem uma base física. Contudo, após experiências e acidentes, tal ideia foi refutada. Por exemplo: houve um caso clínico em que o paciente possuía um tumor cerebral. Durante a cirurgia, uma estrutura do cérebro foi retirada por engano. Esta estrutura se chama Hipocampo. Após a recuperação do paciente, tudo parecia normal, exceto por uma coisa: ele não conseguia fixar novas memórias. A partir disso, percebeu-se que o Hipocampo é uma estrutura essencial para a fixação de novas memórias. O interessante é que memórias adquiridas antes da cirurgia podiam ser lembradas pelo paciente. Essa estrutura cerebral tem um papel essencial no processo de aprendizagem. Por esse exemplo, percebe-se a relação entre estrutura e comportamento. Portanto, aonde eu quero chegar? Nos primeiros anos de vida, o cérebro humano se encontra numa fase de crescimento, assim como todo o resto do corpo. Neurônios surgem e crescem com o tempo. O processo de aprendizagem (relacionado com o Hipocampo, como dito anteriormente) se trata da formação de ligações entre neurônios que poderão ser mantidas em seu cérebro ou não. Durante a fase infantil, a formação de ligações é muito intensa e, portanto, nessa fase, o processo de aprendizagem deve ser muito bem trabalhado. Você estará preparando o cérebro da criança para todos os estímulos que ela receberá durante a vida. Conforme os anos se passam, a atividade de formação cerebral desacelera, dificultando, a cada ano, a formação de novas ligações. Portanto, um cérebro não construído de forma correta, apresentará dificuldades de aprendizagem (formação de ligações) em relação aqueles que foram bem construídos durante as suas fases iniciais de formação. ESTÁ AÍ O PROBLEMA!!! As escolas de Ensino Básico, principalmente as públicas, estão trabalhando de forma errônea com todo esse processo. Por isso dizemos que é muito mais difícil um aluno de Ensino Médio aprender algo depois de uma base ruim. Porém, existe uma coisa chamada Neuroplasticidade. Essa propriedade cerebral se trata da possibilidade de o nosso cérebro se acostumar a novas situações mediante a sua capacitação por meio de treinamentos. Eu, por exemplo, sempre fui um aluno que não gostava de estudar, até um ia em que eu decidi mudar essa situação e comecei a treinar a mim mesmo para o costume do estudo. Hoje, eu não consigo ficar sem estudar. Entretanto, para mim essa tarefa não exigiu um esforço tão grande, pois eu sempre estudei em escolas particulares e a minha criação sempre foi saudável. Mas, voltando àquela pergunta que eu fiz: são os professores os únicos que podem afetar de forma negativa ou positiva o funcionamento cerebral dos alunos? Não, pois um aluno que, durante a fase de gestação, sofreu o efeito de um alcoolismo materno, por exemplo, apresentará tantos problemas quanto aqueles apresentados por alunos que possuem uma vida saudável e um Ensino Básico ruim. Portanto, o trabalho para a formação de verdadeiros pensadores não vem somente da escola. Este é um trabalho que deve ser realizado em conjunto com a família. Quando discutimos problemas como esse, são vários os fatores que podem influenciar aquilo que uma criança será em seu futuro. Porém, em sala de aula, nós temos uma tarefa: assim como na questão ecológica, em que novas técnicas devem ser criadas a fim de amenizar os efeitos da exploração humana sobre a natureza, novas técnicas devem ser pesquisadas e aperfeiçoadas pelos professores a fim de amenizar um problema que está muito acima do nosso poder. Digo isso porque não depende somente dos professores oferecer um Ensino Básico de qualidade. A forma como as entidades governamentais tratam o assunto é um ponto crucial para o entendimento deste problema estrutural que se apresenta em nossa sociedade, principalmente no Brasil. Eu li um livro que fala sobre 49 técnicas utilizadas por ótimos professores e que geram resultados excepcionais em alunos das classes mais pobres dos EUA.

Aí você vira e fala: “Mas Bruno, EUA é totalmente diferente de Brasil”. Porém, o livro foi traduzido e adaptado da melhor forma para a realidade brasileira. Ele apresenta coisas que muitas vezes os professores já usam em suas aulas. Muitas das técnicas eu já usava e pretendia usar antes de lê-lo. Entretanto, o autor diz algo que se trata de uma verdade: aperfeiçoar e melhorar aquilo que você tem de bom é, muitas vezes, melhor do que aperfeiçoar características que você não possui. Os professores que serviram de base para esse estudo de campo realizado pelo Doug Lemov não se utilizam das 49 técnicas listadas. Porém, com aquelas que eles usam, eles são excepcionalmente bons. Segue também uma palestra realizada por uma neurocientista na UFScar que trata do mesmo assunto que eu falei nesse texto. Para quem tiver interesse, é uma ótima palestra. Ela traz outros exemplos e explicações para as relações entre neurociência e aprendizado. Obrigado por ler, mais uma vez ^^


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