Na descrição do meu perfil, eu disse que este blog será
dedicado, principalmente, às minhas experiências dentro de uma escola como
professor. Porém, o tema desta postagem não tem muito a ver com experiências
minhas, mas não é sem relação com as mesmas. Na escola em que eu dou aula, existe
uma certa heterogeneidade. O que eu quero dizer com isso? Em uma das turmas,
principalmente, existem muitos alunos que vieram de escolas públicas e outros
que vieram de escolas particulares. Qual é a implicação disso? Muitas vezes, eu
e os outros professores nos encontramos em situações complicadas ao decorrer
das aulas. Ao explicar, por exemplo, os estados físicos da matéria, alguns
alunos (normalmente, aqueles de escolas particulares) já viram o mesmo conteúdo
em suas respectivas escolas, o que os dá uma margem de distanciamento
intelectual em relação aqueles que provêm de escolas públicas (obviamente, eu
não posso generalizar e dizer que todos os alunos de escolas públicas
apresentam defasagem no conteúdo). Portanto, ao explicar um assunto, os alunos
mais familiarizados com o conteúdo se põem à frente dos outros e respondem
perguntas minhas com maior facilidade. Isto causa um problema muito sério
dentro da sala de aula: os menos familiarizados com o conteúdo se sentem
desprovidos da capacidade de responder às minhas perguntas quando eu as faço. Esse
fato lhes traz um sentimento de inferioridade que não os motiva a correr atrás
da compreensão. Como mediador da atividade cognitiva, os professores devem
trazer uma homogeneidade capacitiva para dentro da sala de aula. Os professores
devem utilizar técnicas muito úteis para incentivar os alunos, que se sentem
inferiores, a correrem atrás do conhecimento. Mas enfim... qual é a real origem
desse problema? Um campo da ciência está se desenvolvendo a largos passos: a
neurociência. Entender o comportamento e a sua base estrutural (o sistema
nervoso) é essencial para que o professor tenha uma visão mais ampla sobre
quais são as capacidades de seus alunos e, até mesmo, quais devem ser as suas expectativas
sobre o aproveitamento em classe. O meu plano, para o meu futuro universitário,
é fazer Licenciatura em química e Bacharelado em Neurociência. As duas áreas
estão intimamente ligadas por motivos óbvios: ser professor é trabalhar com
vários cérebros. E digo mais: ser professor no Ensino Básico é trabalhar com o
futuro daqueles que serão os cidadãos aptos a fazerem escolhas e montarem as
suas vidas (suas obras). Porém, são os professores os únicos que podem afetar
de forma positiva ou negativa o funcionamento cerebral dos alunos? Não. A
neurociência segue uma ideia bem observável: a estrutura do nosso sistema
nervoso está diretamente ligada aos nossos comportamentos. Essa ideia nem
sempre foi a melhor aceita. Antigamente, acreditava-se que o nosso ser (a
consciência e a origem dos sentimentos) é algo fora do corpo ou sem uma base
física. Contudo, após experiências e acidentes, tal ideia foi refutada. Por exemplo:
houve um caso clínico em que o paciente possuía um tumor cerebral. Durante a
cirurgia, uma estrutura do cérebro foi retirada por engano. Esta estrutura se
chama Hipocampo. Após a recuperação do paciente, tudo parecia normal, exceto
por uma coisa: ele não conseguia fixar novas memórias. A partir disso,
percebeu-se que o Hipocampo é uma estrutura essencial para a fixação de novas
memórias. O interessante é que memórias adquiridas antes da cirurgia podiam ser
lembradas pelo paciente. Essa estrutura cerebral tem um papel essencial no
processo de aprendizagem. Por esse exemplo, percebe-se a relação entre
estrutura e comportamento. Portanto, aonde eu quero chegar? Nos primeiros anos
de vida, o cérebro humano se encontra numa fase de crescimento, assim como todo
o resto do corpo. Neurônios surgem e crescem com o tempo. O processo de
aprendizagem (relacionado com o Hipocampo, como dito anteriormente) se trata da
formação de ligações entre neurônios que poderão ser mantidas em seu cérebro ou
não. Durante a fase infantil, a formação de ligações é muito intensa e,
portanto, nessa fase, o processo de aprendizagem deve ser muito bem trabalhado.
Você estará preparando o cérebro da criança para todos os estímulos que ela
receberá durante a vida. Conforme os anos se passam, a atividade de formação
cerebral desacelera, dificultando, a cada ano, a formação de novas
ligações. Portanto, um cérebro não construído de forma correta, apresentará
dificuldades de aprendizagem (formação de ligações) em relação aqueles que
foram bem construídos durante as suas fases iniciais de formação. ESTÁ AÍ O
PROBLEMA!!! As escolas de Ensino Básico, principalmente as públicas, estão
trabalhando de forma errônea com todo esse processo. Por isso dizemos que é
muito mais difícil um aluno de Ensino Médio aprender algo depois de uma base
ruim. Porém, existe uma coisa chamada Neuroplasticidade. Essa propriedade cerebral se trata da possibilidade de o nosso cérebro se acostumar a novas situações mediante a sua capacitação por meio de treinamentos. Eu, por exemplo, sempre fui um aluno que não gostava de estudar, até um ia em que eu decidi mudar essa situação e comecei a treinar a mim mesmo para o costume do estudo. Hoje, eu não consigo ficar sem estudar. Entretanto, para mim essa tarefa não exigiu um esforço tão grande, pois eu sempre estudei em escolas particulares e a minha criação sempre foi saudável. Mas, voltando àquela pergunta que eu fiz: são os professores os únicos
que podem afetar de forma negativa ou positiva o funcionamento cerebral dos
alunos? Não, pois um aluno que, durante a fase de gestação, sofreu o efeito de
um alcoolismo materno, por exemplo, apresentará tantos problemas quanto aqueles
apresentados por alunos que possuem uma vida saudável e um Ensino Básico ruim.
Portanto, o trabalho para a formação de verdadeiros pensadores não vem somente
da escola. Este é um trabalho que deve ser realizado em conjunto com a família.
Quando discutimos problemas como esse, são vários os fatores que podem
influenciar aquilo que uma criança será em seu futuro. Porém, em sala de aula,
nós temos uma tarefa: assim como na questão ecológica, em que novas técnicas
devem ser criadas a fim de amenizar os efeitos da exploração humana sobre a natureza, novas
técnicas devem ser pesquisadas e aperfeiçoadas pelos professores a fim de
amenizar um problema que está muito acima do nosso poder. Digo isso porque não
depende somente dos professores oferecer um Ensino Básico de qualidade. A forma
como as entidades governamentais tratam o assunto é um ponto crucial para o
entendimento deste problema estrutural que se apresenta em nossa sociedade,
principalmente no Brasil. Eu li um livro que fala sobre 49 técnicas utilizadas
por ótimos professores e que geram resultados excepcionais em alunos das
classes mais pobres dos EUA.
Aí você vira e fala: “Mas Bruno, EUA é totalmente
diferente de Brasil”. Porém, o livro foi traduzido e adaptado da melhor forma
para a realidade brasileira. Ele apresenta coisas que muitas vezes os
professores já usam em suas aulas. Muitas das técnicas eu já usava e pretendia
usar antes de lê-lo. Entretanto, o autor diz algo que se trata de uma verdade:
aperfeiçoar e melhorar aquilo que você tem de bom é, muitas vezes, melhor do
que aperfeiçoar características que você não possui. Os professores que
serviram de base para esse estudo de campo realizado pelo Doug Lemov não se
utilizam das 49 técnicas listadas. Porém, com aquelas que eles usam, eles são
excepcionalmente bons. Segue também uma palestra realizada por uma
neurocientista na UFScar que trata do mesmo assunto que eu falei nesse texto. Para
quem tiver interesse, é uma ótima palestra. Ela traz outros exemplos e
explicações para as relações entre neurociência e aprendizado. Obrigado por
ler, mais uma vez ^^


Nenhum comentário:
Postar um comentário