terça-feira, 21 de abril de 2015

"Professor, você é ateu?"


No início, Deus criou a Terra
E em sua solidão cósmica olhou para ela.
E Deus disse “Farei do barro criaturas vivas,
para que o barro possa ver o que fiz”
E Deus criou toda criatura que agora se move,
e uma foi o homem. Dentre elas, apenas o barro como
homem podia falar.
O barro como homem sentou-se,
olhou em torno e falou. “Qual o propósito disso tudo?”,
perguntou educadamente a Deus, que se aproximava.
“E tudo precisa ter um propósito?”, perguntou Deus.
“Certamente”, disse o homem.
“Então deixo que você pense em um para tudo isso”,
E, com isso, ele se foi.
- Kurt Vonnegut,
Cama de gato
Eu acho que a maioria dos professores, principalmente os que lecionam matérias exatas como física e química, já foram submetidos, em algum momento, por uma pergunta dessa, advinda de seus alunos. Primeiramente, eu gostaria de especificar melhor o que é ser “ateu”: Ateu é quem não crê em Deus(es), figura(s) dita(s) como onipresente(s), onipotente(s) e criadora(s) de tudo o que existe. É não acreditar em um ser superior. Dizer que eu sou ateu é uma coisa um pouco complicada... na minha opinião, existem coisas que nós não conseguiremos compreender, independente das nossas tecnologias e do nosso poder de exploração. Porém, isso não quer dizer que eu sou derrotista. Na verdade, o sentido é totalmente o oposto. O fato de existirem barreiras para o nosso conhecimento deve nos motivar mais ainda a tentarmos compreender o mundo que nos rodeia. Por esse motivo, eu digo que eu não sou uma pessoa religiosa... é diferente de ser ateu. Antes mesmo da civilização grega surgir, o ser humano estava sempre em confronto com o que a natureza tinha para oferecer. Ela podia oferecer água, alimento, abrigo, conforto etc. Porém, ela também oferecia terremotos, tempestades, vulcões, tsunamis etc. Pelo fato de o homem se reconhecer como indivíduo no meio de todos esses acontecimentos, ele cria a noção de que existem coisas que estão sob o seu controle e outras que não estão. Se tais eventualidades não estão sob o seu controle, a quem eles devem agradecer ou direcionar suas pragas? Cria-se, então, a ideia de que existem entidades superiores que controlam todos os eventos que podem causar felicidades ou tristezas, na natureza. Portanto, a aproximação do ser humano com tais atores se torna necessária, facilitando o contato entre ambos e criando-se meios para que algumas regalias sejam suplicadas para o conforto de todos: uma boa colheita, por exemplo. Os eventos da natureza começaram a ser tidos como atos provenientes de uma realidade superior. Criam-se, então, os mitos. Qual é o problema com isso? Nenhum!! Essa era a forma que eles encontraram para explicar a realidade a que eles estavam sujeitos. Porém, eu penso da seguinte forma: o ser humano deixa de ser humano a partir do momento que ele se acomoda e não busca pelo conhecimento. Essa é a ideia que eu quis expressar com o trecho de “Cama de Gato”. Independentemente de estarmos falando sobre religião ou ciência, o comodismo causado por uma ideia é danoso àquilo que nos torna seres humanos. Da mesma forma que a explicação “porque Deus quis assim” não me satisfaz, a ideia de que a teoria das cordas pode ser a explicação definitiva para tudo o que existe também não me satisfaz. O ser humano criou, a partir da ciência e da análise empírica, leis e regras que se enquadram muito bem à realidade a que estamos sujeitos. Porém, a forma como um peixe dentro de um aquário vê a realidade é diferente da nossa. Isso quer dizer que ele pode criar as próprias leis e regras que explicam e fundamentam aquilo que ele percebe segundo as suas perspectivas. Sendo assim, quem está certo e quem está errado?
Portanto, achar que nós somos capazes de encontrar algo que responda a tudo sem deixar espaços para novas ideias e novas perguntas é, na minha opinião, o que eu chamaria de atitude derrotista. Correr atrás de respostas e, ao achá-las, novas perguntas virem à tona é o que realmente me deixa fascinado pela ciência. Por esse motivo, não sou uma pessoa que se prende a uma única ideia ou convicção religiosa, mas respeito aqueles que preferem ir por esse caminho. Mas, não ser religioso não quer dizer que eu não acredite em algo superior. Vou explicar a forma como eu vejo as coisas: aquilo que move o ser humano, os peixes, as aves, árvores, planetas, cometas, galáxias, estrelas, átomos, partículas subatômicas, gotas d’água etc. é o que eu chamaria de Deus. Mas não Deus na forma de um velhinho de barba branca que tudo sabe e tudo vê e/ou modifica, fazendo milagres. Para mim, Deus é a energia que move o nosso universo. Nós somos energia e, por isso, não acredito que a morte seja o fim para tudo. A matéria que nos compõe é dissociada e transformada, mas aquilo que movia a matéria ainda permanece presente nesse espaço e pode se apresentar de diferentes formas no mesmo. Essa é a ideia que eu tenho sobre as coisas. Entretanto, o que é essa energia? De onde ela vem? Como ela surgiu? Essas são fronteiras que ainda não foram ultrapassadas e não podemos dizer se serão ou não. Mas eu acredito que, se forem ultrapassadas, novas perguntas surgirão e nos mostrarão, como sempre, que ser um verdadeiro ser humano é estar nessa busca constante por respostas.


Mais uma vez, muito obrigado por ler ^^

terça-feira, 14 de abril de 2015

Um diálogo entre neurociência e aprendizado


Na descrição do meu perfil, eu disse que este blog será dedicado, principalmente, às minhas experiências dentro de uma escola como professor. Porém, o tema desta postagem não tem muito a ver com experiências minhas, mas não é sem relação com as mesmas. Na escola em que eu dou aula, existe uma certa heterogeneidade. O que eu quero dizer com isso? Em uma das turmas, principalmente, existem muitos alunos que vieram de escolas públicas e outros que vieram de escolas particulares. Qual é a implicação disso? Muitas vezes, eu e os outros professores nos encontramos em situações complicadas ao decorrer das aulas. Ao explicar, por exemplo, os estados físicos da matéria, alguns alunos (normalmente, aqueles de escolas particulares) já viram o mesmo conteúdo em suas respectivas escolas, o que os dá uma margem de distanciamento intelectual em relação aqueles que provêm de escolas públicas (obviamente, eu não posso generalizar e dizer que todos os alunos de escolas públicas apresentam defasagem no conteúdo). Portanto, ao explicar um assunto, os alunos mais familiarizados com o conteúdo se põem à frente dos outros e respondem perguntas minhas com maior facilidade. Isto causa um problema muito sério dentro da sala de aula: os menos familiarizados com o conteúdo se sentem desprovidos da capacidade de responder às minhas perguntas quando eu as faço. Esse fato lhes traz um sentimento de inferioridade que não os motiva a correr atrás da compreensão. Como mediador da atividade cognitiva, os professores devem trazer uma homogeneidade capacitiva para dentro da sala de aula. Os professores devem utilizar técnicas muito úteis para incentivar os alunos, que se sentem inferiores, a correrem atrás do conhecimento. Mas enfim... qual é a real origem desse problema? Um campo da ciência está se desenvolvendo a largos passos: a neurociência. Entender o comportamento e a sua base estrutural (o sistema nervoso) é essencial para que o professor tenha uma visão mais ampla sobre quais são as capacidades de seus alunos e, até mesmo, quais devem ser as suas expectativas sobre o aproveitamento em classe. O meu plano, para o meu futuro universitário, é fazer Licenciatura em química e Bacharelado em Neurociência. As duas áreas estão intimamente ligadas por motivos óbvios: ser professor é trabalhar com vários cérebros. E digo mais: ser professor no Ensino Básico é trabalhar com o futuro daqueles que serão os cidadãos aptos a fazerem escolhas e montarem as suas vidas (suas obras). Porém, são os professores os únicos que podem afetar de forma positiva ou negativa o funcionamento cerebral dos alunos? Não. A neurociência segue uma ideia bem observável: a estrutura do nosso sistema nervoso está diretamente ligada aos nossos comportamentos. Essa ideia nem sempre foi a melhor aceita. Antigamente, acreditava-se que o nosso ser (a consciência e a origem dos sentimentos) é algo fora do corpo ou sem uma base física. Contudo, após experiências e acidentes, tal ideia foi refutada. Por exemplo: houve um caso clínico em que o paciente possuía um tumor cerebral. Durante a cirurgia, uma estrutura do cérebro foi retirada por engano. Esta estrutura se chama Hipocampo. Após a recuperação do paciente, tudo parecia normal, exceto por uma coisa: ele não conseguia fixar novas memórias. A partir disso, percebeu-se que o Hipocampo é uma estrutura essencial para a fixação de novas memórias. O interessante é que memórias adquiridas antes da cirurgia podiam ser lembradas pelo paciente. Essa estrutura cerebral tem um papel essencial no processo de aprendizagem. Por esse exemplo, percebe-se a relação entre estrutura e comportamento. Portanto, aonde eu quero chegar? Nos primeiros anos de vida, o cérebro humano se encontra numa fase de crescimento, assim como todo o resto do corpo. Neurônios surgem e crescem com o tempo. O processo de aprendizagem (relacionado com o Hipocampo, como dito anteriormente) se trata da formação de ligações entre neurônios que poderão ser mantidas em seu cérebro ou não. Durante a fase infantil, a formação de ligações é muito intensa e, portanto, nessa fase, o processo de aprendizagem deve ser muito bem trabalhado. Você estará preparando o cérebro da criança para todos os estímulos que ela receberá durante a vida. Conforme os anos se passam, a atividade de formação cerebral desacelera, dificultando, a cada ano, a formação de novas ligações. Portanto, um cérebro não construído de forma correta, apresentará dificuldades de aprendizagem (formação de ligações) em relação aqueles que foram bem construídos durante as suas fases iniciais de formação. ESTÁ AÍ O PROBLEMA!!! As escolas de Ensino Básico, principalmente as públicas, estão trabalhando de forma errônea com todo esse processo. Por isso dizemos que é muito mais difícil um aluno de Ensino Médio aprender algo depois de uma base ruim. Porém, existe uma coisa chamada Neuroplasticidade. Essa propriedade cerebral se trata da possibilidade de o nosso cérebro se acostumar a novas situações mediante a sua capacitação por meio de treinamentos. Eu, por exemplo, sempre fui um aluno que não gostava de estudar, até um ia em que eu decidi mudar essa situação e comecei a treinar a mim mesmo para o costume do estudo. Hoje, eu não consigo ficar sem estudar. Entretanto, para mim essa tarefa não exigiu um esforço tão grande, pois eu sempre estudei em escolas particulares e a minha criação sempre foi saudável. Mas, voltando àquela pergunta que eu fiz: são os professores os únicos que podem afetar de forma negativa ou positiva o funcionamento cerebral dos alunos? Não, pois um aluno que, durante a fase de gestação, sofreu o efeito de um alcoolismo materno, por exemplo, apresentará tantos problemas quanto aqueles apresentados por alunos que possuem uma vida saudável e um Ensino Básico ruim. Portanto, o trabalho para a formação de verdadeiros pensadores não vem somente da escola. Este é um trabalho que deve ser realizado em conjunto com a família. Quando discutimos problemas como esse, são vários os fatores que podem influenciar aquilo que uma criança será em seu futuro. Porém, em sala de aula, nós temos uma tarefa: assim como na questão ecológica, em que novas técnicas devem ser criadas a fim de amenizar os efeitos da exploração humana sobre a natureza, novas técnicas devem ser pesquisadas e aperfeiçoadas pelos professores a fim de amenizar um problema que está muito acima do nosso poder. Digo isso porque não depende somente dos professores oferecer um Ensino Básico de qualidade. A forma como as entidades governamentais tratam o assunto é um ponto crucial para o entendimento deste problema estrutural que se apresenta em nossa sociedade, principalmente no Brasil. Eu li um livro que fala sobre 49 técnicas utilizadas por ótimos professores e que geram resultados excepcionais em alunos das classes mais pobres dos EUA.

Aí você vira e fala: “Mas Bruno, EUA é totalmente diferente de Brasil”. Porém, o livro foi traduzido e adaptado da melhor forma para a realidade brasileira. Ele apresenta coisas que muitas vezes os professores já usam em suas aulas. Muitas das técnicas eu já usava e pretendia usar antes de lê-lo. Entretanto, o autor diz algo que se trata de uma verdade: aperfeiçoar e melhorar aquilo que você tem de bom é, muitas vezes, melhor do que aperfeiçoar características que você não possui. Os professores que serviram de base para esse estudo de campo realizado pelo Doug Lemov não se utilizam das 49 técnicas listadas. Porém, com aquelas que eles usam, eles são excepcionalmente bons. Segue também uma palestra realizada por uma neurocientista na UFScar que trata do mesmo assunto que eu falei nesse texto. Para quem tiver interesse, é uma ótima palestra. Ela traz outros exemplos e explicações para as relações entre neurociência e aprendizado. Obrigado por ler, mais uma vez ^^


segunda-feira, 13 de abril de 2015

Eu serei o autor da minha própria obra!!!


Muitas pessoas gostam de se perguntar e de questionar as religiões sobre o que pode haver após a morte. Isto mostra que o ser humano, por ser racional e ter a capacidade de se visualizar como indivíduo na natureza, tem medo de um dos maiores princípios: o princípio da mortalidade. Estamos acostumados a viver cotidianos repetitivos e que nos colocam em uma zona de conforto. Não estamos acostumados a muitas novidades que possam mudar essa rotina tediosa. Por isso, quando falamos de morte, nos deparamos com um precipício que pode significar o fim de tudo. Mas sempre nos resta uma dúvida: "Se eu não existisse, faria alguma diferença?". A essa pergunta eu respondo da seguinte forma: depende da sua obra. Percebe-se, com uma grande frequência, que muitos indivíduos escolhem viver vidas sem um verdadeiro significado. Quando esses indivíduos (assim como todos nós) morrerem, o que será deixado para trás? Quantas lembranças restaram nas mentes dos pobres vivos sobre essas pessoas? Na minha opinião, um dos maiores problemas que assolam a nossa raça, é o ceticismo com relação ao nosso propósito nesta vida. "Mas Bruno, e os outros animais? Eles vivem sabendo do seu propósito?". "Saber" é uma palavra complicada. Os outros animais, assim como nós, nascem com determinados instintos que os levam a agir de determinadas formas para a sua sobrevivência. O propósito de cada um está intrínseco em sua própria natureza. Mas o ser humano tem algo que os outros não têm: consciência. Ter uma consciência (uma parte bem pequena de nós mesmos em relação ao resto) faz com que nos perguntemos sobre tudo aquilo que, na verdade, está por trás dos bastidores. Quando não conseguimos visualizar a nossa própria razão de existir, tudo parece muito complicado. Não nos sentimos determinados a realizar grandes feitos para a comunidade e, principalmente, para as nossas vidas pessoais. Pessoas que não se enxergam como uma peça importante para o desenvolvimento do todo não deixarão muitos rastros assim que partirem. Suas realizações podem ser ínfimas perto do que poderiam ser. Mas descobrir a sua tarefa aqui nesta vida é algo que necessita de uma grande introspecção. Durante a minha jornada escolar, por grande parte do tempo eu não me senti determinado a estudar de verdade... mas isso mudou a partir do momento que eu descobri o que eu queria ser na vida. Eu escolhi ser professor. Foi uma escolha cuidadosa baseada em pesquisas, experiências e amizades que eu adquiri. Quando eu assistia às aulas de professores muito bons de diferentes matérias, eu conseguia me ver fazendo o mesmo. Eu consegui ídolos que me inspiram a ser como eles foram para mim. Esses ídolos, quando entravam em sala e começavam a dar aula, sabiam dos seus propósitos e das suas tarefas nessa realidade. Hoje eu sei da minha missão aqui: entrar em cada sala de aula que eu puder e ajudar àqueles que da minha ajuda precisam. Motivar os seres humanos que me ouvem a identificarem as suas missões. Mediar a auto-reflexão e introspecção para que eles não sejam suscetíveis ao esquecimento. ESSA É A VERDADEIRA MORTE... o esquecimento. Vá a um cemitério e veja os túmulos: aqueles que parecem menos cuidados e que não possuem mais flores, provavelmente, contêm pessoas mortas. Os outros, com flores e marcas deixadas por lembranças, não contêm morto algum. A pessoa sepultada está viva dentro de todos aqueles que fizeram parte da sua obra em vida. Não podemos nos deixar sermos tomados pela Síndrome do Possível. Imagine que você está para fazer uma cirurgia delicada e que te coloca de frente com a morte... o que você acha de ouvir do médico "farei o possível"? Eu, pelo menos, gostaria de ouvir um "farei o melhor". Façamos o melhor nas condições que temos enquanto não há condições melhores para fazermos melhor ainda. Eu faço e farei o meu melhor em cada sala de aula que eu entrar na minha vida, porque eu sinto que essa é a minha missão aqui. Não só na vida profissional, mas em todos os aspectos eu farei o meu melhor. Não quero ser uma pessoa "morna": aquela que acha o trabalho "mais ou menos", a esposa "mais ou menos" e a VIDA "mais ou menos". Quando eu dei a minha primeira aula teste com 7 professores muito experientes me assistindo, um deles me disse que eu sou um diamante a ser polido. Eu estou correndo atrás desse polimento a cada momento e eu nunca deixarei de o fazer durante a minha vida. Eu serei o autor da minha própria obra.


Bruno, um jovem professor...