No início, Deus criou a
Terra
E em sua solidão
cósmica olhou para ela.
E Deus disse “Farei do
barro criaturas vivas,
para que o barro possa
ver o que fiz”
E Deus criou toda
criatura que agora se move,
e uma foi o homem.
Dentre elas, apenas o barro como
homem podia falar.
O barro como homem
sentou-se,
olhou em torno e falou.
“Qual o propósito disso tudo?”,
perguntou educadamente
a Deus, que se aproximava.
“E tudo precisa ter um
propósito?”, perguntou Deus.
“Certamente”, disse o
homem.
“Então deixo que você
pense em um para tudo isso”,
E, com isso, ele se
foi.
- Kurt Vonnegut,
Cama de gato
Eu acho que a
maioria dos professores, principalmente os que lecionam matérias exatas como
física e química, já foram submetidos, em algum momento, por uma pergunta dessa,
advinda de seus alunos. Primeiramente, eu gostaria de especificar melhor o que é
ser “ateu”: Ateu é quem não crê em Deus(es), figura(s) dita(s)
como onipresente(s), onipotente(s) e criadora(s) de tudo o que existe. É não
acreditar em um ser superior. Dizer
que eu sou ateu é uma coisa um pouco complicada... na minha opinião, existem
coisas que nós não conseguiremos compreender, independente das nossas
tecnologias e do nosso poder de exploração. Porém, isso não quer dizer que eu
sou derrotista. Na verdade, o sentido é totalmente o oposto. O fato de existirem
barreiras para o nosso conhecimento deve nos motivar mais ainda a tentarmos
compreender o mundo que nos rodeia. Por esse motivo, eu digo que eu não sou uma
pessoa religiosa... é diferente de ser ateu. Antes mesmo da civilização grega
surgir, o ser humano estava sempre em confronto com o que a natureza tinha para
oferecer. Ela podia oferecer água, alimento, abrigo, conforto etc. Porém, ela
também oferecia terremotos, tempestades, vulcões, tsunamis etc. Pelo fato de o
homem se reconhecer como indivíduo no meio de todos esses acontecimentos, ele
cria a noção de que existem coisas que estão sob o seu controle e outras que
não estão. Se tais eventualidades não estão sob o seu controle, a quem eles
devem agradecer ou direcionar suas pragas? Cria-se, então, a ideia de que
existem entidades superiores que controlam todos os eventos que podem causar
felicidades ou tristezas, na natureza. Portanto, a aproximação do ser humano
com tais atores se torna necessária, facilitando o contato entre ambos e
criando-se meios para que algumas regalias sejam suplicadas para o conforto de
todos: uma boa colheita, por exemplo. Os eventos da natureza começaram a ser
tidos como atos provenientes de uma realidade superior. Criam-se, então, os mitos.
Qual é o problema com isso? Nenhum!! Essa era a forma que eles encontraram para
explicar a realidade a que eles estavam sujeitos. Porém, eu penso da seguinte
forma: o ser humano deixa de ser humano a partir do momento que ele se acomoda
e não busca pelo conhecimento. Essa é a ideia que eu quis expressar com o
trecho de “Cama de Gato”. Independentemente de estarmos falando sobre religião
ou ciência, o comodismo causado por uma ideia é danoso àquilo que nos torna
seres humanos. Da mesma forma que a explicação “porque Deus quis assim” não me
satisfaz, a ideia de que a teoria das cordas pode ser a explicação definitiva
para tudo o que existe também não me satisfaz. O ser humano criou, a partir da
ciência e da análise empírica, leis e regras que se enquadram muito bem à
realidade a que estamos sujeitos. Porém, a forma como um peixe dentro de um
aquário vê a realidade é diferente da nossa. Isso quer dizer que ele pode criar
as próprias leis e regras que explicam e fundamentam aquilo que ele percebe
segundo as suas perspectivas. Sendo assim, quem está certo e quem está errado?
Portanto,
achar que nós somos capazes de encontrar algo que responda a tudo sem deixar
espaços para novas ideias e novas perguntas é, na minha opinião, o que eu
chamaria de atitude derrotista. Correr atrás de respostas e, ao achá-las, novas
perguntas virem à tona é o que realmente me deixa fascinado pela ciência. Por
esse motivo, não sou uma pessoa que se prende a uma única ideia ou convicção
religiosa, mas respeito aqueles que preferem ir por esse caminho. Mas, não ser
religioso não quer dizer que eu não acredite em algo superior. Vou explicar a
forma como eu vejo as coisas: aquilo que move o ser humano, os peixes, as aves,
árvores, planetas, cometas, galáxias, estrelas, átomos, partículas subatômicas,
gotas d’água etc. é o que eu chamaria de Deus. Mas não Deus na forma de um
velhinho de barba branca que tudo sabe e tudo vê e/ou modifica, fazendo
milagres. Para mim, Deus é a energia que move o nosso universo. Nós somos
energia e, por isso, não acredito que a morte seja o fim para tudo. A matéria
que nos compõe é dissociada e transformada, mas aquilo que movia a matéria
ainda permanece presente nesse espaço e pode se apresentar de diferentes formas
no mesmo. Essa é a ideia que eu tenho sobre as coisas. Entretanto, o que é essa
energia? De onde ela vem? Como ela surgiu? Essas são fronteiras que ainda não
foram ultrapassadas e não podemos dizer se serão ou não. Mas eu acredito que,
se forem ultrapassadas, novas perguntas surgirão e nos mostrarão, como sempre,
que ser um verdadeiro ser humano é estar nessa busca constante por respostas.
Mais uma vez,
muito obrigado por ler ^^




